Caminar por la calle es un ejercicio de integración del espacio interno con el espacio compartido. Camino guardada en mis pensamientos mientras el exterior me bombardea con escenas que absorbo o rechazo. Camino por donde necesito, desvío lo que me invade. Pero las acciones de Ana Teixeira ocurren en medio de la calle: la artista abre un espacio que se instala entre mi espacio interior y el espacio público, justo en el medio. Esa zona intermediaria es delimitada por elementos de una arquitectura lúdica: banco de plaza, hilo rojo de un tejido, un carrito-juguete que guarda sellos, almohadilla de tinta, bolsitas de plástico, en pequeños compartimientos.
No sorprende que una de las acciones haya sido intitulada Otra Identidad. Necesito algo que me defina en ese espacio del medio. De esta manera, Ana Teixeira distribuye por la ciudad de São Paulo facsímiles de cédulas de identidad en las que no soy más un nombre y un número sino una frase, que elijo entre modelos prefabricados por la artista. Puedo caminar por el medio de la calle sin perder la noción de mí misma pues Tengo sueños, Aún tengo tiempo, Amo y no es bastante o Me encanta hablar solo. Ese pasaporte para el medio trae la impresión digital de quien lo posee. En la primera versión de la obra, en 2003, la artista fotografiaba a cada participante en formato 3 x 4. Pero no fotografiaba el rostro sino la nuca. El que posaba para la foto se sentaba en un banquito de espaldas al trípode de la cámara fotográfica. Miraba la ciudad. La foto se la quedaba la artista, que coleccionaba también las impresiones digitales. En las versiones siguientes, la acción “Otra Identidad” prescindió de la formalidad de la fotografía, pero un pequeño cuaderno guarda todas las impresiones digitales con las respectivas frases identificadoras. Cada uno se lleva la cédula de identidad con el campo de la foto a ser rellenado. Es necesario buscar una imagen entre los objetos del mundo compartido y la noción subjetiva de sí.
En Escucho Historias de Amor, Ana Teixeira ofrece sus oídos. La historia queda entre las cuatro paredes que la artista construye tejiendo una larga bufanda roja. A veces, Ana se ofrece para oír historias de amor en idiomas que no comprende, como ocurrió en 2005 en Ámsterdam, Colonia y Venecia. No es a la artista que se le cuenta la historia de amor. Es al medio de la calle, para guardarla en algún lugar del mundo que sea simultáneamente no-público y externo a mí. Nadie necesita entender la historia, ni interpretarla. Basta un espacio que la reciba y una manta de lana roja que la cobije: calor, calma y silencio. Nunca escuché ninguna historia recontada.
Las otras acciones de Ana Teixeira excavan ese lugar del medio para guardar sueños (Cambio Sueños), deseos (Rincón para los deseos) o memorias (Éste no es un lugar vacío): lugares para ese tipo de materia que necesita salir de mí sin perderse en la calle.
Paula Braga - enero/2007
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NO MEIO DA RUA
Andar pela rua é um exercício de integração do espaço interno com o espaço compartilhado. Caminho recolhida em meus pensamentos enquanto o exterior me bombardeia com cenas que absorvo ou rejeito. Ando por onde preciso, desvio do que me invade. Mas as ações de Ana Teixeira acontecem no meio da rua: a artista abre um espaço que fica entre meu espaço interior e o espaço público, bem no meio. Essa zona intermediária é delimitada por elementos de uma arquitetura lúdica: banco de praça, fio vermelho de um tricô, um carrinho-brinquedo que guarda carimbos, almofada de tinta, saquinhos plásticos, em pequenos compartimentos.
Não é de surpreender que uma das ações tenha sido intitulada Outra Identidade. Preciso de algo que me defina nesse espaço do meio. Assim, Ana Teixeira distribui pela cidade de São Paulo fac-símiles de carteiras de identidade nas quais não sou mais um nome e um número, mas uma frase, que escolho entre modelos pré-fabricados pela artista.. Posso andar pelo meio da rua sem perder a noção de mim mesma pois Tenho sonhos, Ainda tenho tempo, Amo e não basta ou Adoro falar sozinho. Esse passaporte para o meio vem com a impressão digital de quem o possui. Na primeira versão da obra, em 2003, a artista fotografava cada participador em formato 3 x 4. Mas não fotografava o rosto e sim a nuca. Quem posava para a foto sentava-se em um banquinho de costas para o tripé com a câmera fotográfica. Olhava para a cidade. A foto ficava para a artista, que colecionava também as impressões digitais. Nas versões seguintes, a ação Outra Identidade dispensou a formalidade da fotografia, mas um pequeno caderno guarda todas as impressões digitais com as respectivas frases identificadoras. Cada um leva a carteira de identidade com o campo da foto por ser preenchido. É preciso buscar uma imagem entre os objetos do mundo compartilhado e a noção subjetiva de si.
Em Escuto Histórias de Amor, Ana Teixeira oferece seus ouvidos. A história fica entre as quatro paredes que a artista constrói tricotando um longo cachecol vermelho. Às vezes, Ana se oferece para ouvir histórias de amor em idiomas que não compreende, como aconteceu em 2005 em Amsterdã, Colônia e Veneza. Não é para a artista que se conta a história de amor. É para o meio da rua, para guardá-la em algum lugar do mundo que seja simultaneamente não-público e externo a mim. Ninguém precisa entender a história, nem interpretá-la. Basta um espaço que a receba e uma manta de lã vermelha que a acalante: aquecimento, sossego e silêncio. Nunca escutei nenhuma história recontada.
As outras ações de Ana Teixeira escavam esse lugar do meio para guardar sonhos (Troco Sonhos), desejos (Recanto para os desejos todos) ou memórias (Este não é um lugar vazio): lugares para esse tipo de matéria que precisa sair de mim sem se perder na rua.